História e Literatura na Narrativa Puritana

Iris Helena Guedes de Vasconcelos*

Um dos grandes escritores da literatura Norte-Americana que se preocupou com a História Colonial da América foi Nathaniel Hawthorne. Caracterizado como simbolista e idealista ético, Hawthorne está incluído entre as maiores figuras que representam a tradição da nova Inglaterra. Nascido em 1824, Salem, Massachusetts, o escritor pertencia a uma família cujos antepassados estavam entre os primeiros colonizadores da América. Seu pai era um capitão da marinha que morreu de febre amarela quando o garoto tinha apenas quatro anos. Depois da morte do pai, sua mãe excluiu-se da vida social. Entre 1821 e 1825, estudou no Bowdoin College, tornando-se depois um escritor de contos e romances. Uma de suas maiores preocupações foi sua descendência de John Hathorne, um juiz que atuou no tribunal das bruxas de Sallem em 1692.

The Scarlet Letter, seu primeiro grande romance, apresenta uma narrativa que retrata fielmente o contexto sócio-cultural da Nova Inglaterra, povoada basicamente por protestantes ingleses perseguidos na "Velha Inglaterra" por contestar a autoridade dos chefes religiosos, isto é, Bispos e Clérigos. Este grupo de protestantes queria banir a corrupção e purificar a Igreja Anglicana, simplificando as formas de adoração, rejeitando os rituais que seguiam os padrões da Igreja Romana. Conhecidos como puritanos, estes protestantes primavam por atitudes morais rígidas e consideravam o prazer como pecado, valorizando o trabalho árduo como forma de valorização do indivíduo.

Em 1609 um grupo de protestantes, liderado por William Bradford, fugiu para a Holanda. Depois de onze anos (1620), resolveu emigrar para América e estabeleceu-se em Plymouth. Em seguida Plymouth foi anexada a Massachusetts Bay, principal colônia puritana cuja capital é Boston.

Acreditando serem os eleitos de Deus, os puritanos pretendiam fazer da Nova Inglaterra um lugar de virtude e felicidade. Uma "Nova Canaã". Desta forma, achavam-se no dever de perseguir e punir todos aqueles que não cumprissem sua Doutrina. Portanto, para preservar a identidade puritana, havia um rígido controle das atividades de cada membro da sociedade, particularmente em relação ao sexo, pois este era diretamente relacionado com a "queda de Adão".

Na utopia de construir uma sociedade perfeita, os puritanos passaram de perseguidos a perseguidores, frustrando o sonho dos que imaginavam encontrar no "Novo Mundo" um lugar onde reinassem a igualdade e a liberdade. Entre os idealizadores da "democracia" da América estão os Quakers. Liderados por William Penn, os Quakers estabeleceram-se na Pennsylvania, uma colônia formada por pessoas dos mais diversos países europeus.

O "Quakerism" admitia a existência de um Deus benevolente, diferente da visão do Deus irado que encontramos nos sermões do pastor puritano Jonathan Eduards. Para eles, Deus revelava-se diretamente ao indivíduo, não apenas através da Bíblia, igrejas e natureza. A revelação de Deus ao indivíduo era chamada de "inner light" (luz interior). Os Quakers defendiam a liberdade de consciência e a paz. Não seguiam qualquer forma eclesiástica. Ao contrário da predestinação pregada pelos puritanos, a salvação cabia a todos que a procurassem.

Por pregarem uma doutrina mais libertária que contradizia os dogmas da doutrina puritana, os Quakers eram considerados bruxos. A perseguição e punição eram severas. Quando não eram executados, pois para os puritanos estes seriam mensageiros do demônio, eram marcados, tendo as orelhas cortadas ou qualquer outra forma de símbolo que servisse de advertência para o resto da comunidade, mantendo o indivíduo socialmente marginalizado.

Certamente foi a partir desse contexto que Nathaniel Hawthorne escreveu The Scarlet Letter. Na introdução do romance "The Custon house", o escritor diz ter usado como base para sua criação ficcional um pedaço de tecido escarlate na forma "A", que encontrou quando exercia o cargo de superintendente da alfândega de Boston (Boston Custom House), junto de alguns documentos que contavam a estória. Ficção e história parecem caminhar lado a lado em The Scarlet Letter. Segundo Roberto E. SPILLER, Hawthorne mostra em seus enredos uma visão ética da vida de seus antepassados calvinistas da Nova Inglaterra, apresentando uma atitude imparcial e crítica. Inegavelmente o drama de Hester Prynne, foco da narrativa, assemelha-se ao drama de muitas bruxas que passaram pelo tribunal de Salem. Cabe aqui questionar se realmente a atitude do autor em The Scarlet Letter é imparcial e crítica, ou se, de alguma forma, ele tenta justificar e defender os valores puritanos.

O romance é situado em Boston, no século XVII, e apresenta uma jovem senhora, Hester Prynne, na porta da prisão com sua filha bastarda, ainda bebê, nos braços. Acusada de adultério, ela é condenada a ficar exposta no cadafalso público por três horas, e deve, daí por diante, usar uma letra A escarlate em seu busto para o resto da vida como símbolo do adultério cometido. Seu marido, um velho estudioso inglês, há dois anos, enviou-lhe para Boston no propósito de preparar um lar para eles. Porém, não conseguiu acompanhá-la no tempo devido. Fora do conhecimento de Hester, ele foi capturado por índios, e chega no momento em que sua esposa está sendo condenada publicamente. Hester não revela a identidade de seu amante, como a comunidade gostaria. Ironicamente, seu companheiro do pecado é uma das mais respeitadas figuras da comunidade, o jovem pastor, Arthur Dimmesdale, um homem "consciente" que escapa da condenação pública por uma atitude estóica de sua companheira, porém é intimamente torturado por sua consciência de culpa.

Depois de alguns anos, Hester prova ser uma mulher forte e capaz de, apesar da humilhação, encontrar um lugar na sociedade de Boston, através de seu trabalho árduo e de sua dedicação aos menos afortunados. Sua filha, Pearl, desenvolveu um comportamento travesso. Pearl vive constantemente fazendo perguntas inteligentes, relacionando o pastor a letra escarlate. Coincidentemente, a letra A é a letra inicial do nome do Reverendo, Arthur.

O marido de Hester que tomou o nome de Roger Chillingworth e estabeleceu-se em Boston como médico, fez com que ela mantivesse sua identidade em segredo e passa a procurar descobrir a identidade de seu amante, numa obsessão louca por vingança. Certa noite, ele satisfaz seu desejo em descobrir tal identidade, presenciando Hester, Pearl e Dimmesdale conversando. A partir daí passa a agir fria e diabolicamente, torturando o reverendo quando finge ajudá-lo medicamente, consciente que a decadência física do pastor estava relacionada com seu pecado oculto.

Pearl convida Arthur para acompanhá-la junto com sua mãe, de mãos dadas, da maneira que eles se encontravam, naquela noite, no dia seguinte quando elas estivessem expostas no cadafalso, mas Dimmesdale responde que só fará isto no dia do julgamento final.

Durante uma caminhada na floresta, Hester pede a Arthur que fuja com ela para a Europa, porém fica sabendo que Chillingworth também havia reservado uma passagem no mesmo navio, destruindo, assim, seus planos.

Depois de proferir seu entusiasmante Sermão do Dia da Eleição, Dimmesdale deixa a igreja e convida Hester e Pearl par se juntarem a ele no pelourinho, quando ele revela publicamente sua letra escarlate e morre nos braços de sua amada.

Na conclusão, o narrador deixa ao leitor várias interpretações de acordo com o testemunho dos que presenciaram o episódio. Muitos dos espectadores atestaram ter visto a "letra escarlate" no busto do miserável reverendo. Alguns afirmaram que o reverendo Dimmesdale, no dia que Hester começou a usar o emblema, entrou num processo de autopunição. Outros atribuíram o estigma ao velho Roger Chillingworth, como resultado de chagas mágicas e venenosas. Outros, ainda, os que apreciavam a sensibilidade peculiar do ministro da "moral" disseram que o símbolo era efeito do remorso que saia do coração, manifestando o julgamento celestial pela presença visível da letra. Porém, havia aqueles que presenciaram a cena e negaram ter visto qualquer marca no busto do reverendo. Nem suas últimas palavras implicaram em qualquer ligação de sua parte com a culpa pela qual Hester Prynne tinha usado a letra escarlate. Para essas pessoas o gesto de morrer nos braços daquela pecadora mostrava que na visão de "Infinita Purificação" todos nós somos pecadores.

A multiplicidade de idéias mostra a universalidade do pensamento humano. A própria formação do povo americano, constituiu-se de uma miscelânea de diferentes culturas impondo-se com o tempo uma ideologia dominante protestante. Demostrando maior flexibilidade que seus antepassados puritanos, Hawthorne deixa que o leitor faça seu próprio julgamento, pois a verdade parece estar naquilo que cada um acredita. Todavia, não podemos negar uma certa comunhão do narrador com o pensamento puritano como mostra a seguinte passagem:

"Havia um católico entre a multidão de Puritanos. Ele deve ter visto nesta bela mulher, tão pitoresca no seu modo de vestir e semblante, com a criança nos braços, um objeto que o lembraria a imagem da maternidade divina, a qual tantos pintores têm representado, alguma coisa que pode lembrá-lo, mas apenas como contraste, daquela imagem sagrada de maternidade sem pecado, cuja criança veio para redimir o mundo. Aqui, havia a corrupção do mais profundo pecado na mais sagrada qualidade de vida humana, trabalhando de tal forma que o mundo era apenas mais negro para esta beleza de mulher, e mais perdido para a criança que ela tinha dado a luz".

Porém, o ponto de vista do narrador não significa ser o mesmo do escritor. Hawthorne torna-se isento de qualquer julgamento quando diz estar apenas recontando a estória que encontrou documentada junto ao pedaço de tecido na alfândega.

Voltando à questão do ideal puritano, o autor usa de ironia quando cita a Utopia, de Tomas More, em comparação à "New Colony". O projeto de sociedade perfeita dos puritanos parece ter sido contraditório. Entre as primeiras necessidades para a organização desta comunidade destaca-se a atribuição de uma parte do solo "virgem" como cemitério, e outra como prisão. A princípio, o paraíso seria um purgatório.

Ao descrever engenhosamente o cenário da Boston colonial, "alguns quinze ou vente anos depois do estabelecimento da cidade", o narrador enfatiza suas primeiras construções como a cadeia, a igreja, o cemitério, o mercado e suas florestas naturais, lugares que estão relacionados com o processo de pecado-punição-salvação.

A imagem da velha, escura e feia prisão, a "flor negra da sociedade civilizada", metaforicamente representa o julgamento sócio-moral a que Hester foi submetida. As boas viúvas da comunidade, aquelas "feias" e de "idade avançada" sugeriam que Hester deveria ter uma marca de ferro quente na testa, ou morrer, pois está escrito "não cometerás adultério" (Êxodo xx:14). A purificação, tão severa quanto a sentença estabelecida pelas "boas viúvas", encarregou-se de tirar de Hester seu espírito revolucionário. Por que os anjos do Senhor não anunciaram aos puritanos os mesmos direitos dados à Maria? Homens, filhos de Davi, não tenhais medo de tomar convosco Hester, "porque o que foi gerado nela vem do Espírito Santo" (Mateus: 1;20). Evangelicamente, foi a maternidade quem redimiu Hester, reconduzindo-a à sociedade das "virtudes e mistérios". Portanto, anunciação e redenção se fazem presentes no corpo de Hester, mulher e mãe dos homens que "fizeram a América".

A letra escarlate, símbolo da categoria social a qual Hester pertencia, representando a "vulnerabilidade" da mulher, o pecado, a queda, transforma-se num símbolo de amor, pois Pearl (Pérola), a preciosidade da vida de Hester, é a personificação da letra escarlate. Para ela a menina representa a renúncia, a purificação.

A rigidez dos valores puritanos representados pelo comunidade da Boston setecentista contrapõe-se ao desfecho que o autor dá ao romance. Pois a letra escarlate torna-se um objeto de redenção. O reverendo Dimmesdale assume a postura de um "Cristo" segundo a opinião de alguns devotos, embora tenha durante todo romance desempenhado o papel de "Pedro", aquele que negou. Hester, apesar da humilhação, manteve-se firme carregando sua cruz, seu desterro. Chillingworth, mesmo tendo agido fria e diabolicamente para realizar seu desejo de vingança, redime-se no final quando deixa sua fortuna para Pearl. Pearl, embora tenha sido considerada uma bruxinha, uma filha do demônio, finalmente parece ter se tornado um verdadeiro objeto de redenção. Assim, a narrativa puritana de The Scarlet Letter transcende os rígidos valores do "Velho Testamento", supera o espectro normativo das igrejas reformadas, para expressar os liames entre a cultura de uma época e as angústias da condição humana. Noutras palavras, a busca da humanidade moderna e a utopia de homens e mulheres que navegaram as águas do Atlântico.

 

Referências Bibliográficas

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